sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Introdução


      Viajei para Cuba em 16 de janeiro de 2012, chegando lá no dia 17, e voltando dia 27 do mesmo mês pela madrugada; portanto tive 10 dias “úteis” na ilha. Dentre esses dias, em dois deles fui para uma excursão de dois dias por Santa Clara, Trinidad, Sancti Spíritus, Cienfuegos; e no último dia fui para Varadero com finalidade somente de curtir a praia, porque lá praticamente só tem turista. Os sete dias restantes fiquei em Havana, hospedado no bairro de Havana Velha.
Rua Merced, onde fiquei hospedado (casa de Nelson).


    A natureza das postagens vai variar entre observações e opiniões particulares, e informações técnicas sobre a viagem (roteiros, documentos necessários, dicas). Acredito que é isso que interessa as pessoas que estão planejando viajar para Cuba, ou tem pouca informação sobre o local. Então o intuito do blog é incentivar o turismo e o estudo científico dos leitores e de mim mesmo.
        A viagem teve o objetivo principal de desmistificação de Cuba. As pessoas tem o costume de falar muito sobre o que não conhecem, e essas opiniões sempre são acríticas ou preconceituosas. E esse país tem o carma de concentrar essas opiniões a seu respeito. Já vi “esquerdistas” assimilando Cuba com a perfeição, com o paraíso; e se você abrir os ouvidos por 10 minutos deve escutar alguém fazendo críticas que foram absorvidas sem nenhum senso crítico de programas de TV como Jornal Nacional (não ouso nem chamar de jornal) ou algumas midias impressas, que são como livros de ficção porque o escritor diz o que quer (ou o que lhe é mandado) independente de condizer com a realidade, como a Veja. Desta forma, lá fiquei de olhos e ouvidos abertos para analisar essa sociedade; sabia que em 10 dias não poderia me tornar um profundo conhecedor, mas já valeu mais do que os 21 anos de contrainformação que tive aqui no Brasil.
        Algumas informações:
  1. A educação e a saúde são públicas, universais e de boa qualidade.
  2. Há uma diferença enorme entre as atividades das crianças em Cuba e no Brasil. Em todos os dias e em todos os lugares que eu fui em Cuba eu vi as crianças de lá indo ou voltando do colégio, nos colégios, nas praças fazendo atividades escolares de educação física ou conhecendo os pontos históricos, e portanto a história de Cuba; e nos finais de semana jogando beisebol, futebol ou brincando nas praças. De fato o conceito teórico de ampliar o local físico da escola para toda a cidade que eu aprendi na universidade é aplicado na ilha, ao contrário do Brasil. Todos esses dias eu não vi uma criança passando fome, não vi uma criança sem perspectiva, não vi uma criança abandonada pelo estado. No mesmo dia que cheguei ao Brasil me deparei com a notícia de despropriação de 2000 casas do local, que já poderia ser considerado como um bairro pela sua vastidão, conhecido como Pinheirinho pelo governo de SP para devolver o terreno a um empresário falido, que já não pisava lá havia 7 anos. Vi novamente, nesse local, crianças com fome, sem escola, sem moradia. Vi novamente o rosto de uma criança que não é uma criança, não tem no seu dia a dia atividades de criança.
    Crianças cubanas após fazerem educação física numa praça perto de onde estava hospedado. Era comum eu acordar de manhã e ao sair ver essas atividades no local, sempre acompanhados por um professor(a).

    Crianças na Praça da Revolução conhecendo a história de Cuba. Aí fica o memorial José Martí, e durante minha visita percebi vários grupos escolares do tipo.
    Final de semana: crianças brincando nas praças.

  3. Uma das consequências do item anterior é a inexistência da palavra “trombadinha”, “menino de rua”, no vocábulo cubano. Portanto as crianças, com uma imensa probabilidade, não viram marginais. A minha experiência demonstrou o que grande parte das pessoas esquecem (porque a grande mídia não passa essa mensagem, e sim o seu contrário): a existência de criminosos, em gigantesca parte, não é devido a maléfica natureza humana de alguns; e sim pelas condições em que os seres humanos são postos pela sociedade. De fato, não existe natureza humana, eterna, imutável. A consciência do homem é posteriori a sua existência, i.e., primeiro o homem existe, nasce, e depois a sua consciência é formada pouco a pouco pela educação, cultura, exemplos. Dai vem a liberdade de você andar pelos bairros mais pobres de Havana, de madrugada, com péssima iluminação, e não ser ameaçado.
  4. Isso não faz do cidadão cubano um ser humano perfeito. É necessário aqui fazer contraponto à imagem que alguns idealistas da esquerda fazem de Cuba e de sua sociedade. Inicialmente, o óbvio é que cada cidadão é diferente de outro. Apesar de lá eu conhecer pessoas maravilhosas que me acolheram em suas casas, ou que conversei espontaneamente nas ruas, a grande parte das minhas experiências com pessoas, e isso foi extremamente repetitivo, foram de um mesmo tipo: perguntam de onde você é, e logo depois da sua resposta veem com uma conversa que gostam muito do seu país, falam das novelas, futebol, carnaval; tudo isso com um interesse final de pedir ou vender algo. De fato, creio que isso aconteça em boa parte do mundo com turistas, e me aconteceu com maior frequência quando estava em bairro turístico. Apesar de não haver assalto, tentam vender charutos falsos a você, tentam vender ingresso de show que não existe. Quando eu estava subindo no ônibus, que é lotado de pessoas, furtaram meu celular. Só fui perceber um bom tempo depois. Então há pessoas que não querem trabalhar, há pessoas que querem ganhar algo na conversa, etc.
  5. Percebi que há um quantidade considerável de idosos trabalhando ou pedindo coisas nas ruas (em partes turísticas). A minha interpretação disso é o seguinte: o fato inegável é que Cuba é um país pobre materialmente. Creio que para complementar a renda, para complementar a aposentadora, muitas pessoas escolhem continuar trabalhando, e outras escolhem ir pedir nas ruas. A diferença é que, nas mesmas ruas que você passou de manhã e viu um idoso pedindo dinheiro, se você passar a noite ele não está mais lá. Você não vê ninguém dormindo nas ruas, seja criança, trabalhador, idoso; isso indica que todo mundo tem uma casa, com comida, com saneamento. Não é bom que um idoso muitas vezes tenha que trabalhar ou pedir coisas na ruas, mas se você for comparar com o Brasil que ao sair da faculdade você vê toda uma família vivendo, dormindo, se alimentando na calçada, termina que é uma situação menos ruim. É bom também falar que andando por Havana eu vi várias casas geriátricas, com os idosos fazendo exercícios ao ar livre auxiliados por enfermeiras. Só pude notar isso a olho nu, mas considerando o serviço público social cubano, acredito que lá eles tenham medicamentos, cuidados especiais, etc.
    Idoso trabalhando em Santa Clara

    Idoso que ficou seguindo nossa excursão (enchendo o saco!) pedindo dinheiro em Trinidad

    Casa geriátrica em Havana Velha com as pessoas fazendo exercícios

  6. Cuba, de fato, é um país pobre materialmente. Claro que no Brasil as diferenças sociais são imensas; mas uma pessoa de classe média baixa já pode ter internet em casa, carro, algumas tecnologias como celulares mais modernos. Na ilha isso é muito difícil. Claro que no Brasil muitas vezes a pessoa se atola em dívidas para conseguir essas coisas, trabalha que nem um escravo alienado. Mas o que eu quero assinalar é a pura existência material. Isso tem razões, que na maioria das vezes não são analisadas e o fato é simplesmente mostrado com motivação de descreditar o modelo socialista. Dois desses fatos, que eu acho mais importantes, são: primeiro e principalmente, o bloqueio e o terrorismo que os Estados Unidos praticam contra a ilha; e a existência de muitos cubanos que querem simplesmente se apoiar no estado, sabendo que vão ter saúde, comida e moradia de qualquer forma. Claro que há erros do governo também, mas não acredito que o governo quer deixar os cubanos sem acesso a internet para controlar a população (como se a população não fosse informada de outras formas sobre acontecimentos nacional e internacionais) ou Fidel quer deixar a população pobre e se beneficiar de seu trabalho (risos). Eu acredito que essas reformas econômicas que estão sendo aplicadas, e a aliança comercial na América Latina, são de enorme importância para o futuro de Cuba. Por isso a imprensa burguesa diaboliza tanto a visita de Dilma à Cuba, e a imprensa de Cuba a enaltece tanto. Sem desenvolvimento material não há comunismo, e eu acredito que o governo cubano está buscando isso.
    Carros antigos

  7. É importante ressaltar que mesmo com péssimo desenvolvimento material, há uma energia enorme do governo para proporcionar uma boa qualidade de vida, e com esse esforço posso citar: remédios gratuitos para doenças como diabetes, leite gratuito para todas as crianças, vacinação gratuita e obrigatória contra uma grande quantidade de enfermidades, combate à epidemias (quando estava lá, vi o pessoal combatendo a dengue com aquelas máquinas que soltam fumaça), escolas e faculdades para todos e com qualidade, trasporte (apesar de antigo e lotado) quase de graça, assistência à gestantes, etc, etc, etc. E isso resulta nos índices que todos conhecemos.

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